Menos um dia. O barulho caótico das teclas, marca de um silêncio descompassado, era enfim encoberto pelo pausar dos ponteiros que se esticavam de cima a baixo no relógio de parede. Fim de tarde. Embora sutil e delicado, o sol invadia o escritório por entre as persianas semiabertas; com finas fatias quentes, coloria em hora marcada as paredes cirúrgicas. Marcas diárias de memória: o pó de café agora carimba o fundo seco da xícara posicionada, a rigor, no canto direito da mesa; ângulo perfeito, adorno essencial ao arco-íris de pequenos papéis rabiscados às pressas que colore a parede glacê – a rapidez do tempo repousa no ar.
Retira os óculos e respira leve, profundo, esticando-se na cadeira como um gato que eleva as patas e congela, por um instante, a olhar o teto. As ideias que lutavam entre si durante o dia, tentando agarrar pequenos segundos de atenção entre as frases digitadas na tela, agora dão espaço ao vazio; breve e conciso, se mantém assim como uma concha d’água nas mãos: segundos de forma antes de escorrer pelos dedos. Agarra os óculos, enquadra os papéis, checa as gavetas: nada além de elásticos velhos, um lápis mordido pelo estresse e um maço de cigarros lacrado, escondido ali desde quando aquele número dois ainda era marcado pelos caninos, e não triturado pelos molares. Encara, tranca, tenta, mais uma vez.
Sobre a mesa, ainda permanece o velho peso de papéis, artigo rústico, longe de qualquer detalhe em vidro, formas finas em madeira ou apenas um simples suvenir barato. A pedra que impedia a dança diária dos papéis pelo vento cabia perfeitamente em sua mão, como uma massa cinza-escuro impossível de moldar; as marcas leves de duros encontros contra o chão eram quase invisíveis, diluídas no fundo opaco. O motivo do uso de tal objeto ímpar ainda era desconhecido por ela; lembra que quando chegou pela primeira vez ao escritório, a pedra jazia sobre a mesa no silêncio da sala. Pesava, e ali permanecia, simplesmente. Desde então, encara dia a dia o vazio opaco que insiste em ser, e nada mais. Imutável em suas dúvidas, as mantém; e assim desconhece o motivo de repetir rotineira e mecanicamente o mesmo ritual: óculos, cabelo e agora a pedra, que repousa dentro de sua bolsa no caminho de casa, para enfim retornar inerte sobre a mesa do escritório no próximo dia de trabalho.
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