Desde o momento que teve consciência de si, mantinha de forma mecânica uma mania um tanto incomum – pelo menos era assim que a viam: cavava buracos, simplesmente. Embora não planejados e nem medidos, o tamanho era certeiro, pois deveria ser o suficiente para cabê-lo dentro, e um pouco mais. Pequeno, inexperiente, como uma criança; não sabia usar a pá, mas cavava, sem pensar.
“Aquilo não será nada bom para ele”, diziam os mais velhos, com suas bocas cerradas e seus narizes na altura dos olhos. Escondiam o olhar, se falavam pelo silêncio, todos eles, entre eles, dentro de seus próprios buracos. Mas nada disso se fazia pesar, pois cada vazio esculpido no todo era preenchido com a ajuda do tempo. Enquanto ali estava, contemplava os breves dias de chuva e as longas primaveras tristes, até o momento em que não houvesse mais o nada. Quando o novo já havia se espalhado, caminhava pelo jardim até ser arrebatado pelo antigo ciclo, e assim fazia, mais uma vez.
Com força e tamanho desproporcionais à vontade, cravava os instrumentos na terra morna; golpe por golpe, deformava para criar. E não parou, continuou a cavar mais e mais, até o silêncio caber por inteiro dentro daquele enorme vazio que agora tomava o jardim por completo. Olhava atônito, e só conseguia pensar em como ficava ainda menor dentro daquilo que havia criado; tal grandeza agora o estremecia. Não apenas os dias chuvosos, nem as primaveras frias não foram suficientes; amontoavam os restos do outono e as vertigens de verão. O vazio permanecia intacto.
Com força e tamanho desproporcionais à vontade, cravava os instrumentos na terra morna; golpe por golpe, deformava para criar. E não parou, continuou a cavar mais e mais, até o silêncio caber por inteiro dentro daquele enorme vazio que agora tomava o jardim por completo. Olhava atônito, e só conseguia pensar em como ficava ainda menor dentro daquilo que havia criado; tal grandeza agora o estremecia. Não apenas os dias chuvosos, nem as primaveras frias não foram suficientes; amontoavam os restos do outono e as vertigens de verão. O vazio permanecia intacto.
Pensava que este seria o seu último – afinal, como haveria de revirar a terra fresca, se aquela enorme sombra ocupava todo o jardim? Sem a ajuda do tempo, esqueceu. Deixou a pá e com ela as suas vontades. Colocou-se como um voyeur das horas perdidas, inerte, sem mais.
Após dias riscados, páginas arrancadas e calendários esquecidos, resolveu, por fim, olhar tudo o que havia deixado, abandonado, ignorado por meses, e que agora podia não apenas compreender, mas sentir a beleza dos detalhes. Voltou ao antigo jardim e contemplou o buraco que o havia consumido há tanto. Neste momento, porém, percebeu que o enorme vazio agora se reduzia a um raso espaço marcado no solo. Não foram as chuvas, as folhas ou qualquer outro sopro do tempo, mas sim ele próprio, que havia crescido. Grande demais para se perder em sua antiga criação, poderia agora se sentar na grama, sentindo novamente a terra morna em suas mãos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário