Leve e macio o vento me suspira aos ouvidos, me abraça sutil, arrepia em frações. Nada me falta sob um pôr de estrelas ébrio – apoiado na sacada, vejo a noite correr enquanto na agulha giram acordes dissonantes e longas notas no trompete. No prédio à frente, me afronta o quadriculado de luzes que se apagam ao primeiro olhar ansioso do relógio. Ilhada à ponta, no entanto, as cortinas se abrem na janela iluminada pelo abajur; rodando pelo quarto, dança uma sombra ao fundo de buzinas e sirenes que sobem do asfalto: a beleza flutua em chiaroscuro.
Do pouco que me pego observando, sei que horas passariam comigo a encarar tal pintura. Sinto-me paralisado, absorto: entrego-me por completo – vão-se as palavras e o tempo a suspirar. Não sei seu nome, e me encontro agora vendo seu rosto pela primeira vez; o sorriso simples estampa a completude dos pequenos prazeres da vida. Tudo o que quer nesse momento é que a melodia a abrace e a gire pelo quarto. A cada passo, monto sua imagem como uma criança frente a um quebra-cabeça; hipnotizo-me a cada peça. Os cabelos longos deixam a sua marca pelo ar, enquanto exibe sua pele clara e sensível pelas alças finas do vestido estampado.
Tão logo seduzido, me vejo mais perto a cada sutil movimento pelo ar. Suas mãos se descompassam e se entrecruzam em uma nova dança, e a cada passo me aproximo, devagar, observando seus dedos que agora se estendem a mim, segurando minha mão e levando-me a ser também abraçado pelas notas que pairam sobre nós. Meu coração se infla e tão leve fico ao ponto de rodarmos pelo quarto, girando ao sentido da brisa que invade pela janela entreaberta. Entre vultos que se repetem, consigo sentir somente seu perfume floral, e do resto a nada me prendo senão aos seus pequenos lábios pintados, à sua pele macia e quente a encostar em meu rosto áspero e ao sutil trocar de pés onde o vazio era preenchido pelos nossos corpos interligados pelo mesmo descompasso. Finalmente a se completar, sinto o arrepio em sua pele ao fechar os olhos e encontrar seus lábios com os meus. Do vento frio da janela proclamava o nosso calor, parados inertes ao quarto que agora girava, como se tudo pudesse ir aos ares por aquele breve instante.
Respiro lentamente de coração acelerado e olhos fechados o último aroma das flores, para soltar o ar, abrir os olhos e me encontrar na sacada onde sempre estive, ouvindo o velho Monk improvisar ao fundo. A figura do prédio à frente agora encosta lentamente a janela de vidro, cerrando por fim as cortinas escuras. De nada sei sobre a dona dos longos cabelos castanhos, mas lembrarei de cada movimento ao aroma das mais sutis notas florais.