sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fim de noite

          Leve e macio o vento me suspira aos ouvidos, me abraça sutil, arrepia em frações. Nada me falta sob um pôr de estrelas ébrio – apoiado na sacada, vejo a noite correr enquanto na agulha giram acordes dissonantes e longas notas no trompete. No prédio à frente, me afronta o quadriculado de luzes que se apagam ao primeiro olhar ansioso do relógio. Ilhada à ponta, no entanto, as cortinas se abrem na janela iluminada pelo abajur; rodando pelo quarto, dança uma sombra ao fundo de buzinas e sirenes que sobem do asfalto: a beleza flutua em chiaroscuro. 
          Do pouco que me pego observando, sei que horas passariam comigo a encarar tal pintura. Sinto-me paralisado, absorto: entrego-me por completo – vão-se as palavras e o tempo a suspirar. Não sei seu nome, e me encontro agora vendo seu rosto pela primeira vez; o sorriso simples estampa a completude dos pequenos prazeres da vida. Tudo o que quer nesse momento é que a melodia a abrace e a gire pelo quarto. A cada passo, monto sua imagem como uma criança frente a um quebra-cabeça; hipnotizo-me a cada peça. Os cabelos longos deixam a sua marca pelo ar, enquanto exibe sua pele clara e sensível pelas alças finas do vestido estampado. 
          Tão logo seduzido, me vejo mais perto a cada sutil movimento pelo ar. Suas mãos se descompassam e se entrecruzam em uma nova dança, e a cada passo me aproximo, devagar, observando seus dedos que agora se estendem a mim, segurando minha mão e levando-me a ser também abraçado pelas notas que pairam sobre nós. Meu coração se infla e tão leve fico ao ponto de rodarmos pelo quarto, girando ao sentido da brisa que invade pela janela entreaberta. Entre vultos que se repetem, consigo sentir somente seu perfume floral, e do resto a nada me prendo senão aos seus pequenos lábios pintados, à sua pele macia e quente a encostar em meu rosto áspero e ao sutil trocar de pés onde o vazio era preenchido pelos nossos corpos interligados pelo mesmo descompasso. Finalmente a se completar, sinto o arrepio em sua pele ao fechar os olhos e encontrar seus lábios com os meus. Do vento frio da janela proclamava o nosso calor, parados inertes ao quarto que agora girava, como se tudo pudesse ir aos ares por aquele breve instante. 
          Respiro lentamente de coração acelerado e olhos fechados o último aroma das flores, para soltar o ar, abrir os olhos e me encontrar na sacada onde sempre estive, ouvindo o velho Monk improvisar ao fundo. A figura do prédio à frente agora encosta lentamente a janela de vidro, cerrando por fim as cortinas escuras. De nada sei sobre a dona dos longos cabelos castanhos, mas lembrarei de cada movimento ao aroma das mais sutis notas florais.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Seis da tarde (parte 1)

        Menos um dia. O barulho caótico das teclas, marca de um silêncio descompassado, era enfim encoberto pelo pausar dos ponteiros que se esticavam de cima a baixo no relógio de parede. Fim de tarde. Embora sutil e delicado, o sol invadia o escritório por entre as persianas semiabertas; com finas fatias quentes, coloria em hora marcada as paredes cirúrgicas. Marcas diárias de memória: o pó de café agora carimba o fundo seco da xícara posicionada, a rigor, no canto direito da mesa; ângulo perfeito, adorno essencial ao arco-íris de pequenos papéis rabiscados às pressas que colore a parede glacê – a rapidez do tempo repousa no ar. 
        Retira os óculos e respira leve, profundo, esticando-se na cadeira como um gato que eleva as patas e congela, por um instante, a olhar o teto. As ideias que lutavam entre si durante o dia, tentando agarrar pequenos segundos de atenção entre as frases digitadas na tela, agora dão espaço ao vazio; breve e conciso, se mantém assim como uma concha d’água nas mãos: segundos de forma antes de escorrer pelos dedos. Agarra os óculos, enquadra os papéis, checa as gavetas: nada além de elásticos velhos, um lápis mordido pelo estresse e um maço de cigarros lacrado, escondido ali desde quando aquele número dois ainda era marcado pelos caninos, e não triturado pelos molares. Encara, tranca, tenta, mais uma vez. 
        Sobre a mesa, ainda permanece o velho peso de papéis, artigo rústico, longe de qualquer detalhe em vidro, formas finas em madeira ou apenas um simples suvenir barato. A pedra que impedia a dança diária dos papéis pelo vento cabia perfeitamente em sua mão, como uma massa cinza-escuro impossível de moldar; as marcas leves de duros encontros contra o chão eram quase invisíveis, diluídas no fundo opaco. O motivo do uso de tal objeto ímpar ainda era desconhecido por ela; lembra que quando chegou pela primeira vez ao escritório, a pedra jazia sobre a mesa no silêncio da sala. Pesava, e ali permanecia, simplesmente. Desde então, encara dia a dia o vazio opaco que insiste em ser, e nada mais. Imutável em suas dúvidas, as mantém; e assim desconhece o motivo de repetir rotineira e mecanicamente o mesmo ritual: óculos, cabelo e agora a pedra, que repousa dentro de sua bolsa no caminho de casa, para enfim retornar inerte sobre a mesa do escritório no próximo dia de trabalho.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O silêncio diário do jardim

         Desde o momento que teve consciência de si, mantinha de forma mecânica uma mania um tanto incomum – pelo menos era assim que a viam: cavava buracos, simplesmente. Embora não planejados e nem medidos, o tamanho era certeiro, pois deveria ser o suficiente para cabê-lo dentro, e um pouco mais. Pequeno, inexperiente, como uma criança; não sabia usar a pá, mas cavava, sem pensar. 
         “Aquilo não será nada bom para ele”, diziam os mais velhos, com suas bocas cerradas e seus narizes na altura dos olhos. Escondiam o olhar, se falavam pelo silêncio, todos eles, entre eles, dentro de seus próprios buracos. Mas nada disso se fazia pesar, pois cada vazio esculpido no todo era preenchido com a ajuda do tempo. Enquanto ali estava, contemplava os breves dias de chuva e as longas primaveras tristes, até o momento em que não houvesse mais o nada. Quando o novo já havia se espalhado, caminhava pelo jardim até ser arrebatado pelo antigo ciclo, e assim fazia, mais uma vez.
         Com força e tamanho desproporcionais à vontade, cravava os instrumentos na terra morna; golpe por golpe, deformava para criar. E não parou, continuou a cavar mais e mais, até o silêncio caber por inteiro dentro daquele enorme vazio que agora tomava o jardim por completo. Olhava atônito, e só conseguia pensar em como ficava ainda menor dentro daquilo que havia criado; tal grandeza agora o estremecia. Não apenas os dias chuvosos, nem as primaveras frias não foram suficientes; amontoavam os restos do outono e as vertigens de verão. O vazio permanecia intacto. 
         Pensava que este seria o seu último – afinal, como haveria de revirar a terra fresca, se aquela enorme sombra ocupava todo o jardim? Sem a ajuda do tempo, esqueceu. Deixou a pá e com ela as suas vontades. Colocou-se como um voyeur das horas perdidas, inerte, sem mais. 
         Após dias riscados, páginas arrancadas e calendários esquecidos, resolveu, por fim, olhar tudo o que havia deixado, abandonado, ignorado por meses, e que agora podia não apenas compreender, mas sentir a beleza dos detalhes. Voltou ao antigo jardim e contemplou o buraco que o havia consumido há tanto. Neste momento, porém, percebeu que o enorme vazio agora se reduzia a um raso espaço marcado no solo. Não foram as chuvas, as folhas ou qualquer outro sopro do tempo, mas sim ele próprio, que havia crescido. Grande demais para se perder em sua antiga criação, poderia agora se sentar na grama, sentindo novamente a terra morna em suas mãos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Denso

Denso, ele percebe o ar carregado pelo tempo. As horas queimam mais rápido que o cigarro, marcadas pelos minutos que os acertam com uma forma descomunal. Durante o dia, sente-se encarado pelo metrônomo, como uma música executada pelo silêncio. A urgência grita, mas se dispersa no eco das atividades vazias que ele insiste ilusoriamente em manter. Sobram as cinzas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Sorria

Sorria, quem sabe, um pouco mais
De si, antes a pensar, do que jamais, pelo outro
Sofrer, quem sabe, de todo menos
Pois de mais o vazio não há de viver

Se crer, inspire, quem sabe, a descobrir
Que o que procura já está achado,
Deixado mas não visto, logo aqui, quem sabe
Em minha frente, hei de achar, assim

Dentro de mim, quem sabe, pelo sim, mas não
Por tentar encontrar no fora, nada além
De ilusões passageiras, me canso, pois sou o agora
E não aquém.