sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O vento

          Logo ela olhava e sentia-se assim, invadida pela brisa suave; queria voar, tocar, sentir a mais alta nuvem, planar como pena: sem pressa. Sentia, queria... o passado servia como uma pedra sobre os papéis na mesa frente ao vento. Imaginava ela a pular, sem consequência, sem mais nem menos, mas... e o medo? Mais uma vez encara o peso sobre os papéis. Mas ela não imaginaria que aquele seria o dia, não do nada, mas do começo do tudo. O vento, ímpar, abriu a janela, estremeceu o prédio e as bases, de ambos, mas, logo quando o peso caiu, os papéis se embaralharam no ar como as folhas daquele outono. Não mais sentia as pernas, nem os braços, e logo menos, nem o medo... deixou-se. Sem mais, num levante planou e tão logo tocou o céu. O impossível? Ficou para trás, junto com o velho peso de papéis sobre a mesa.

[Texto para o projeto "LP"]

O empurrão

          Chegou a hora já atrasada. Quem diria que eu agradeceria tal infortúnio algum dia – pois bem, eis que hoje me pego às palmas. Estava eu atada de mãos a pés, frente à fogueira que já havia se apagado há tempos, imóvel e vítima infalível do tempo. Me faltava o calor, mas não aquele artificial e vazio, alheio, fora de mim; precisava do verdadeiro, o que acenderia tudo novamente, independente do tempo e do frio. Poderia ter permanecido assim por meses, até anos! Que absurdo! Hoje consigo ver novamente, pois o empurrão que sofri me arrancou as amarras e a venda que cobria meus olhos. Por trás do tecido preto, o mundo, quando chegava, não tinha cores, mas, de visão renovada, vejo cada pincelada sutil do artista. Com tudo isso e nada mais, o empurrão me jogou para o primeiro passo, mas não apenas, pois as pegadas ali deixariam a trilha para a minha nova vida.

[Texto para o projeto "LP"]

A motivação

          Um homem, caminhando sem direção e procurando por comida e abrigo em um ambiente deserto, avista uma floresta seca e sem vida se aproximando. Ele desanima ao ter tal visão, mas não desiste de sua busca. Ao adentrar na floresta morta, começa a enxergar, agora de perto, árvore por árvore, e sozinha entre as memórias secas vislumbra uma enorme árvore cheia de frutos que estava encoberta por troncos e folhas mortas. Os frutos o alimentaram e sua sombra o aconchegou em meio ao vazio. Na manhã seguinte, subiu até o topo da grande árvore, e de lá pode ver não só todo o horizonte, mas o caminho que estava procurando. Aquele pequeno ponto no nada o manteve vivo, e desde então, ele o agradece por ter sido a força que o guiou até seu destino.

[Texto para o projeto "LP"]

A fogueira

          O que fazer depois que o fogo apaga? Antes vejo que não precisávamos de fato um do outro, o calor nos mantinha, a adrenalina ligava nossos corpos e assim estávamos sedados pela simples presença. Não tinha razão que nos abatesse! E hoje? Ficou apenas os ‘bons tempos’ na memória e o superficial para os olhos e ouvidos alheios. Acontece que, quando o fogo se extingue e o frio inevitavelmente aparece, esta não é a hora de se afastar, mas de se manter junto, porque só o contato e a proximidade hão de elevar a temperatura. Não foi isso que ocorreu. O frio se instalou e o vento do tempo apagou a última chama acesa; sem ela, nem a luz para vermos o caminho nós tínhamos mais, muito menos a luz para vermos um o outro, tanto que o escuro tomou conta de nossas visões. Ainda estávamos ali, juntos... mas pra quem? Por quem? Pra quê? 
          Era difícil se mover – uma vez parado, o conforto é maior do que na caça, óbvio; maior do que um movimento em direção ao outro. No escuro vazio eu poderia ficar por dias, meses, anos... Mas eu era jovem, e a cada dia era um dia a menos, não queria eu apenas deixar tudo passar diante dos meus olhos. ‘A vida é feita pra se viver’ já diziam os velhos poetas, e a minha eu quero na maior das intensidades. Dois caminhos ali eu tinha: desde que com a ajuda do outro, procuraria o novo e com ele acenderia o fogo mais uma vez – diferente de antes, porque mais do mesmo só alimenta o conformista vazio. Por outro lado, deixaria os restos já há muito apagados da fogueira e procuraria o novo que agora não vejo devido ao escuro. Este diferente deverá me iluminar como nada sentido antes, e me manter por perto quando o primeiro floco de neve ameaçar de cair. 
          Seja qual for o caminho, ou qual decisão tomar, algo, dentre tudo, deverá ser mantido: agir! Não importa a boca alheia, nem o vento frio e cortante que uma estrada sozinha pode trazer, porque se minha vontade grita, não sou eu que irei calá-la, mas sim o que encontrará a sua recompensa.

[Texto para o projeto "LP"]